Quarentena

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Percebi que a janela do banheiro parece ser uma boa forma de contar a passagem dos dias.

Desde que me mudei para essa kitnet às margens de uma rodovia no inferno, devido à incompetência da senhoria em instalar redes de proteção que servissem para alguma coisa nas janelas, eu tinha que escolher entre sufocar e assar dentro de uma caixa de cimento de 20 m² ou ser devorado pelos pernilongos malditos que infestavam a região. Normalmente, eu escolhia a primeira opção. Então, toda noite, antes de dormir, tinha que checar se as janelas estavam fechadas.

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Vocês Querem Ser Gado

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Eu não sei se acredito que exista alguém manipulando as pessoas para serem burras.

Sim, na política existem fake news, os jornais e as notícias não são confiáveis e etc, mas não é disso que estou falando. É claro que a educação é uma merda e existem muitos analfabetos no Brasil. Mas eu também não estou falando disso.

Eu estou falando dos alfabetizados. E a razão pela qual faço isso, é por que acho que já existe gente o suficiente falando sobre aqueles que não têm oportunidades, mas talvez não gente o suficiente falando sobre o que as pessoas que as têm fazem com essas oportunidades.

Por exemplo, pensem comigo:

– Quantos alfabetizados existem que não lêem nem um livro por ano?

– Quantos alunos de cursos avançados colam, não estudam, não se importam em aprender, parasitam os colegas nos trabalhos em grupo e puxam o saco de professores por nota, mesmo sabendo que não merecem passar?

– Quantos zombam daqueles que não vão a festas para estudar, e acham mais “descolados” aqueles que colam, não estudam ou repetem? Isso desde o final do ensino fundamental até a faculdade.

– Quantos zombam daqueles que tentam trazer assuntos mais inteligentes para as conversas, mas adoram aqueles que sempre têm o mesmo papo superficial de balada, bar e cabeleireiro?

– Quantos escolhem cursar uma faculdade “por que não tem exatas”, humanas, ou qualquer coisa que a pessoa simplesmente desistiu de tentar entender?

– Quantos nascem com uma tablet no berço, querem fazer cursos avançados que envolvam pesquisas, pagam pau para gringo, mas não sabem e não querem aprender inglês?

– Quantos não têm o mínimo interesse em saber o que se passa na política do país? (Eu sou um deles.)

Engraçado como muitas dessas pessoas são as mesmas que reclamam sobre a decadência do sistema de educação e a falta de oportunidades para a população em geral.

Eu já vi homens e mulheres inteligentes em faculdades se comportarem como verdadeiros retardados infantis em bares e baladas, por que eles sabem que se se comportassem de forma mais interessante, seriam considerados chatos, e seriam trocados por aqueles que só sabem encher a cara, falar de sexo e jogar truco.

Eu não acho que a inteligência seja admirada em lugar algum. Talvez nem mesmo na universidade. O que é admirado é o lucro que ela pode gerar. Mas se tudo o que ela puder provocar for angústia existencial, então é melhor ser burro e ficar com o sexo e o funk e o álcool. Afinal de contas, nós somos todos utilitaristas, não é mesmo?

Então não me venha com esse papo escroto de que o governo deixa as pessoas burras.

Vocês QUEREM ser burros. Vocês QUEREM ser gado. Vocês só querem que os outros ACHEM que são inteligentes, mas na verdade vocês ODEIAM pensar.

É mais fácil acreditar que as pessoas são meras vítimas de um sistema alienante, do que acreditar que elas escolhem a alienação dia após dia.

E para não dizerem que isso é apenas o desabafo de um pessimista amargurado, reclamando sem base alguma, termino esse texto com um trecho de um livro de outro pessimista amargurado mais conhecido e respeitado pela população em geral:

 

“Por quê nós reclamamos e pedimos por algo a mais? Nós não sabemos a resposta para essa pergunta. Seria pior se nossas preces petulantes fossem atendidas. Vamos, tente, dê a qualquer um de nós um pouco mais de independência, solte nossas amarras, relaxe o controle sobre nós e nós… Sim, eu lhe garanto… Nós imploraremos para sermos controlados de novo.”

Notas do Subsolo – Fiodor Dostoievski

Eu não quero ter Fé

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Eu não quero ter fé.

Eu quero que você me diga “se você fizer A + B existe ao menos uma chance de resultar em C.”

Eu não quero ter de apontar todas as falhas e erros de lógica absurdos no seu raciocínio, apenas para ser chamado de “pessimista” por você.

Eu não quero mais ouvir que “precisamos acreditar no futuro para sobreviver.”

O futuro não existe. Ele nunca existiu, assim como deus.

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O que eu tenho contra o comunismo

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Estávamos sentados em um bar, conversando e bebendo, como sempre, Sid, Norman e eu. Norman havia trazido uma amiga do bar LGBT onde trabalhava como DJ naquele dia. Ela, como a maioria dos frequentadores daquele bar, era esquerdista. Norman parecia querer manter a paz entre nós, mas Sid parecia querer me provocar.

A conversa seguiu por um ponto, até que ela disse:

– O que você tem contra o comunismo?

– Nada, ué – respondi, enquanto acendia um cigarro.

– “Nada”! Sei! – Sid exclamou, parecendo já estar bêbado – como nada? Você fala merda deles o tempo todo!

– Tenho tanto contra o comunismo quanto você tem contra deus, Sid – disse, dando um gole em minha cerveja.

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Favelho Oeste

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Quando cheguei à essa cidade, uma das primeiras coisas que fiz foi encontrar uma biqueira. Uma amiga me recomendou que eu fosse até uma favela próxima ao centro, onde havia um pequeno mercado que vendia cerveja, cigarro, seda, entre outras coisas. Algumas casas ao lado, ela disse que haveria uma velha que ficava ali, sentada, que é com quem eu deveria falar.

– Uma velha? – perguntei rindo, enquanto fumávamos um.

– É, cara, eu também não acreditei quando me disseram. Mas eu fui lá e era ela mesmo.

Eu disse que só acreditaria vendo. No dia seguinte, fui até o local de bicicleta. A pé eu levaria 40 minutos só para chegar até o centro, mas a bicicleta que eu havia arranjado tornava as coisas mais fáceis. Segui a placa que dizia “bebida 24h” (a única da cidade) e cheguei à rua principal onde ficava a tal favela.

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Conversas de Clima

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Um dia choveu
No outro dia, fez sol
No outro dia, choveu de novo
E no outro, fez sol

Um dia choveu
No outro dia, também choveu
Achou que eu ia dizer que tinha feito sol, não é?
Mas no dia seguinte, também choveu

Tem dias que chove e faz sol
Tem dias que chove, mas fica nublado
As vezes, chove o dia inteiro
As vezes, chove em pancadas

O que esse poema quer dizer?
Alguma coisa sobre a efemeridade?
Não, apenas que conversar sobre o clima é inútil
E que essas conversas são chatas pra caralho

Seja Estúpido: Na Boiada, como os Bois

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Não sei se isso é verdade, mas um professor de história que tive no ensino fundamental contou para minha sala que Monteiro Lobato, quando era estudante, tirava 7 de propósito nas provas, por que sabia que se tirasse 10, iriam exigir mais dele, e ele não queria ter que se esforçar. Minha mãe disse que odiou esse professor por dizer isso pra mim. Isso não me surpreendeu, considerando que era exatamente o que ela fazia comigo.

Eu costumava ficar na frente do computador com meu contrabaixo no colo. Eu lia um pouco, falava com meus amigos, estudava, tocava um pouco de baixo, tudo ao mesmo tempo, na frente do computador. Eu nunca tive dificuldades na escola (com relação a notas, é claro), e isso parecia incomodar minha mãe.

Ela dizia que eu não estudava o suficiente, que nunca me via estudando, que não sabia como eu conseguia ir bem na escola. Quando eu mostrava meus boletins, ela se mostrava incrédula, e sempre buscava defeitos, as matérias em que eu havia ficado na média, ao invés de ter tirado 9 ou 10.

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A Bruxa

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Olhe para aquela velha amarga
Sentada à mesa com seus netos
Você pode ver as marcas de desprezo e moralismo
Arrependimentos e sonhos desperdiçados em seu rosto

Como este ser desgraçado pôde viver até agora sem ser punido?
Parece que seu único propósito é tornar a vida dos outros pior

Isso não teve coragem de não se reproduzir
Nem de acabar com sua existência patética, e com a maldição que vem com ela
Mas teve coragem de criar vida senciente
E projetar todo o ódio que sentia de si mesmo nela

Oh, criança, como eu queria que você pudesse ver
Que a vida não é o que essa bruxa diz
Que você não é o que essa bruxa diz
Não a deixe comer seu coração

Atire isso no fogo e feche a porta
E jamais olhe para trás

Nós Estamos Vivos

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Não*
Nós somos aqueles que ainda estão vivos
Nós somos aqueles que ainda tentam sentir alguma coisa
Nós somos aqueles que se recusam a apodrecer em uma morte errante, como todos os outros

Nós queremos viver, não apenas existir
Nós queremos um sentido, por que nós nos recusamos a apenas comer e cagar e reproduzir e morrer como todos os outros
Nós queremos algo diferente
Nós queremos o que foi prometido a nós

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